QUE SAÚDE SE DIFUNDA SOBRE A TERRA

QUE SAÚDE SE DIFUNDA SOBRE A TERRA

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Finados


FINADOS
Pe. Igor Damo
Texto provisório

            No dia dois de novembro celebremos todos os fiéis defuntos.  Finados é o dia dos que “findam”, dos que chegaram ao “fim de seu tempo”. O dia de finados surgiu no século XI com os monges do mosteiro de Cluny, na França. Tudo começou com uma missa por todos os mortos no dia seguinte à festa de todos os Santos. A intenção era ressaltar a unidade existente entre os cristãos que vivem na terra e os mortos e santos que estão na glória. Assim, hoje, o povo presa por está data, reza em favor dos seus entes queridos.
Ao visitar os cemitérios, tradicional prática nos finados, lembranças tornam-se vivas. Histórias de pessoas e/ou famílias marcadas pela alegria e também por dores e sofrimentos vem à memória. Junto a isso o povo cristão fortalece a fé na ressurreição e na esperança de que os falecidos alcancem a vida eterna.
Todos aqueles que crêem garantem a vida eterna (Jo 3, 16). Por isso, a oração em favor dos mortos é sinal de confiança. Ela toma sentido profundo a partir da fé e dos limites da fé de irmãos e irmãs falecidos, à luz daquele que oferece a eternidade, Jesus morto e ressuscitado.
Jesus dizia: “Quem crê em mim tem a vida eterna”. Isso mostra como a eficácia da oração e a própria salvação eterna tem seu auge na profundidade da fé tida em Jesus. Segundo o evangelista João Deus dá a vida a quem recebe seu Filho (Jo 5, 11). Isto é, os que morrem com Cristo, os que vivem segundo sua vontade, acreditam no evangelho testemunhando o amor entre as pessoas e a comunidade, alcançam a vida eterna.
            Podemos nos perguntar: Como era a fé de nosso amigo falecido? Qual a profundidade de minha fé em Jesus dentro do contexto atual do mundo em que vivo?
            No dia dos finados parece ser importante refletir a partir da morte, a vida. Ela dá chance para a salvação. Situações como mortes de inocentes causadas pela violência, pelo descaso da sociedade, pelo domínio sobre os pobres, demonstram desvios e pouca fé de pessoas... Isso pode provocar tormentos ao chegarmos, certo dia, à morte.  
 A morte causada pela injustiça não agrada a Deus porque machuca e abrevia a vida. “Até quando afligis minha alma e me aborreceis e não se envergonhais de me oprimir? (Jó)”. Dada está situação, a oração feita aos mortos, adquire sentido e responsabilidade para converter corações à vida eterna.
A morte, parte da vida, nem sempre é vista à luz da fé na ressurreição. Dentro disso, manifestamos certo medo diante da morte. O medo da morte nos rodeia. Diante deste mistério ficamos confusos... Especialmente por sermos ocidentais temos a vida como nosso tudo, enquanto a morte como ruína. Porém, tememo-la e em contradição não cuidamos o suficiente da vida. Assim, esquecemos de inibir as armas, os químicos, a poluição, a exploração, a corrupção, a informação maliciosa, a falta de pão e de leite e outros fatores que de certa maneira são inimigos da morte “natural”, dada ao longo dos anos ou mesmo dentro da fraqueza de cada corpo. Ainda, às vezes, duvidamos se estes desafios têm a haver com a fé na ressurreição.
            Contudo, morrer é como nascer. A pessoa, ao nascer, fica em crise por entrar em contato com uma realidade diferenciada do útero da mãe. Mas a criança deve nascer, senão morre. Na situação de morte, entra-se em crise também, por entrar em contato com outro mundo diferente, a totalidade. Por sua vez, para a fé cristã, na medida em que vamos morrendo, vamos ressuscitando para eternidade. Isso dá segurança.
            Na história se associou a morte com o pecado. Mas é significativo pensar a morte não como conseqüência do pecado. Conseqüência do pecado é a forma como experimentamos a morte. O pecado consiste em querer viver só para si mesmo, longe da comunidade, sem se relacionar e se solidarizar. A solidão no lugar da solidariedade, por exemplo, faz com que a morte seja vivenciada como assalto e destruição. O isolamento, o individualismo e o distanciamento da comunidade de fé do “lado de cá”, faz sustentar a idéia da solidão do “lado de lá”. Neste caso, o medo e até o pavor da morte cresce devido ao um sentimento de culpa; endividados com Deus tememos não receber o céu.
            De fato, o céu parece ser a potencialidade daquilo que já na terra experimentamos. Sempre que na terra fazemos experiência do bem, da felicidade, da amizade, da paz, da justiça e do amor, já estamos vivendo, de forma parcial, mas real, a realidade do céu.
Neste dia dos finados reconheçamos a necessidade de equilíbrio, de uma fé comprometida com o sonho de Deus, que enviou seu filho para mostrar o caminho da salvação. 
“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito. Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus". (Jo 17-21).

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Violência aqui, ali, lá.

Violência aqui, ali, lá...
                                                                                                                                  Igor Damo
Gosto de estar em determinados lugares onde há frequentemente a presença de jovens. Algumas vezes sou convidado por eles, outras vezes os frequento por conta própria. As próximas linhas são fruto de minha presença em alguns destes espaços.
Primeiro fato. Em uma noite enluarada, já um pouco tarde, resolvi sair de casa para tomar sorvete. Ao chegar à sorveteria, sentei à mesa, pelo lado de fora, próximo da calçada. Durante alguns minutos fiquei sozinho, até que um jovem me cumprimentou e parou ao meu lado. Sentou-se e começou a conversar baixinho. Disse-me: “Lá em casa está feio. Acabamos de brigar. Por acaso tu tens um ‘bagulho’? Senão terei que subir o morro”. Fiquei inseguro, pois não o conhecia. Espontaneamente falei que não poderia ajudá-lo. O rapaz naturalmente agradeceu e continuou sua caminhada. Após este episódio, certo dia, o avistei no meio da assembleia, durante uma celebração eucarística. Depois disso, nunca mais o vi. Fico a imaginar se ainda vivencia a violência em seu lar e se tenta superá-la fumando maconha.
Segundo fato. Após um tempo, mudei-me de cidade. Como viajava para visitar escolas e dar formação às lideranças de Igreja, costumeiramente saía cedo de casa. Uma manhã, por volta das cinco horas, quando abri o portão da garagem, tive uma surpresa. Escutei um barulho. Olhei no retrovisor do carro e avistei um jovem “dando murros” no vidro traseiro. No momento pensei ser um assalto. Contudo, pedindo carona perguntou-me se eu poderia levá-lo para casa; ele estava com medo de chegar só e “receber gancho”. Descobri que a casa, à qual se referia, era de recuperação de dependentes químicos. Percorri aproximadamente 10km até o local. Como ele estava alcoolizado, perguntei por que bebia. Contou-me, então, que começou a beber após ter sido demitido do trabalho. Disse-me também: “Seguinte Chefe! Durante o tratamento fico nervoso, tenho vontade de matar, então fujo para tomar umas”.
Terceiro fato. Este aconteceu em plena Sexta-Feira Santa. Após a procissão, ao iniciar a reflexão na igreja, um jovem, alcoolizado, depois de ter-me ouvido proferir a palavra pobre, gritou: “Eu, padre, sou o pobre aqui”. Seu grito silenciou a todos, principalmente a mim. De certa forma, “tirou-me o tapete”. As lideranças, assustadas, levantaram-se para retirá-lo de dentro da igreja. Porém, pedi para que o trouxesse até mim. Imaginei: “Hoje este cara vai fazer a homilia em meu lugar”. E assim aconteceu: Aproximei o microfone de sua boca e pedi se queria falar algo. Com dificuldade, disse: “Gosto de vocês, da Igreja, sou gente boa, vamos bater palmas para Jesus”. Sinceramente, as pessoas esperavam que o jovem pronunciasse “abobrinhas”. Interessante! O povo acabou dando uma salva de palmas.  A partir daquele dia, levo como lembrança o jovem violentado nos seus direitos de expressão; ele buscou ser ouvido em plena celebração da paixão e morte de Cristo.
Quarto fato. Estava trabalhando a temática da violência em uma escola. Ao encerrar o trabalho, uma mulher me parou no corredor dizendo que já havia ouvido falar de mim, me conhecia e gostaria de um favor. Pediu para que conversasse com seu amigo. Fiquei um pouco tímido, mas acabei agendando hora para ouvir o rapaz, em uma sala da escola. Sinceramente não acreditava que ele viria conversar, no entanto apareceu. Era um jovem deprimido e pensava em suicidar-se. Sentia-se incapaz de se vestir bem, de se achar bonito e de agradar a pessoa amada. Encontrava-se, de fato, triste. Motivo do abatimento: o fim do noivado.  Evidentemente, o fim do namoro tinha outras causas, no entanto, para o jovem, isto é que pesava: não ter moto para passear com a namorada e ter pouco dinheiro para estar na moda. Pessoalmente, não acreditava em uma situação assim. Como um jovem, com caminho longo para percorrer, carregava um sentimento de rejeição tão forte, a ponto de querer tirar sua própria vida? Pensava, sim, em suicídio porque o namoro não havia dado certo, não tinha moto e não conseguia ser feliz com as roupas que usava.
É realmente complicado! O jovem é violentado discretamente.
Quinto fato. Certo dia fui convidado para participar de um baile de formatura, dos formandos do terceiro ano do Ensino Médio. O salão estava lotado de adolescentes, jovens, famílias, enfim, de lideranças da comunidade. A festa estava boa. O bate-papo com a gurizada, melhor ainda. Os alunos estavam contentes. Embora eu não estivesse na festa para fazer análises, chamou-me a atenção a camiseta dos alunos do “terceirão”. Ela tinha cor verde e na estampa o slogan de um famoso refrigerante. Aproximando-me de um rapaz, disse a ele: É difícil para os jovens arrecadar dinheiro para formatura. Eles têm que fazer promoção e ainda necessitam de patrocínio. Aí tive a surpresa, quando ele afirmou: “Não é patrocínio cara. Alguém sugeriu à turma e todos aceitaram utilizar esta camiseta”. No momento pensei o que poderia levar alunos de terceiro ano, prontos para prestar vestibular, a serem “outdoors ambulantes”? Aí lembrei! A marca de refrigerante na camiseta dos jovens formandos patrocinava, naqueles dias, um programa de grande audiência na televisão.
Estes poucos exemplos, espero que ajudem você a refletir e lembrar-se de situações semelhantes vividas no cotidiano, nos estádios, no trânsito, nas escolas, nas festas. Existem milhares de situações que fazem despertar o desafio de discutir sobre a violência, especialmente na vida dos jovens.
As situações de violência envolvem a juventude de hoje de maneira exacerbada.  A tendência é de criminalizar a juventude. Há a necessidade de perceber como, em muitos casos, os jovens são vítimas e, quando transgredidos, precisam ser orientados.
Percebamos! A juventude de um jeito ou outro está sendo exterminada aqui, ali, lá. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A linguagem na pastoral urbana

A linguagem na pastoral urbana
Pe. Igor Damo
Estamos convencidos da importância da linguagem na sociedade? Ela é uma das principais ferramentas de formação na cultura atual. Por meio dela podemos pensar o passado, o futuro e construir nosso projeto de vida. Pela linguagem nos comunicamos com o mundo, com os diferentes grupos sociais, com suas concepções, maneiras de pensar e modos de compreender, entender e praticar o que é correspondente à vida.
A linguagem é um grande anseio de comunicar. À Igreja que tem como meta comunicar Jesus Cristo, a linguagem aparece como companheira inseparável da pastoral urbana. Ao mesmo tempo, é um desafio, pois precisa estar adequada à cultura atual facilitando o diálogo, sobretudo com os cidadãos envolvidos pela cultura urbana.
À Igreja é urgente uma linguagem atualizada, à luz da prática junto ao povo, perto das famílias, das crianças e jovens, nos vários espaços de convivência, aproximando o Evangelho das causas urgentes... Isso implica afirmar que, mais do que ontem, hoje é indispensável considerar os elementos constitutivos da linguagem, como: gestos, sinais, sons, símbolos e palavras.
Tem-se consciência, pois, de que o mundo plural é, no concreto, retrato da vitória das pessoas que gozam de um espaço de liberdade, de modo especial na cidade. Sabe-se como os conceitos, valores, tradições e patrimônio do passado não são aceitos com facilidade, especialmente pelas novas gerações. Adequar a linguagem para os dias de hoje, não significa abandonar convicções e valores. Significa querer aprimorar a transmissão, a fim de que os valores da fé sejam bem compreendidos e vividos pelas pessoas.
A Igreja corre o risco de manter uma comunicação funcional e viciar a linguagem, deixando-a ineficiente a este mundo dinâmico. Isto exige cuidado. É difícil perceber se a linguagem está descontextualizada, desconectada, ampla e pouca específica. É difícil saber ao certo se a fé anunciada aos homens e mulheres mais distantes é compreendida.
Sobre o conteúdo comunicado, não se tem dúvida. Jesus Cristo é o que deve ser comunicado. Porém, como comunicá-lo? Este é o entrave. Por isso, além da qualidade do conteúdo da mensagem, carece sempre aperfeiçoar o modo de expressá-lo; a comunicação se agrava quando há autoritarismo explícito, autoafirmação, defesa autoritária de ideias, demonstração de poder e posse da verdade. São poucos os que creem em verdades únicas, soluções prontas, como, às vezes, as autoridades eclesiais, ou mesmo os leigos, expressam.
Há pessoas, felizmente, convencidas da necessidade de ver as mudanças atuais de maneira positiva, aceitando-as e encarando-as com firmeza. Primeiro, porque as mudanças não são estáticas. Segundo, porque quem as rejeita se frustra, sofre, e os esforços podem ser em vão. Terceiro, porque temer a novidade é uma atitude inconveniente dentro de um novo tempo.
É preciso comunicar-se com o mundo assim como ele é! Evidentemente, é bastante difícil ter uma linguagem pertinente para todos; ninguém pode dizer que encontrou, até aqui, a linguagem mais adequada. A linguagem na pastoral urbana é um compromisso árduo, realmente desafiante. O primeiro desafio é escutar o mundo urbano; aprende-se a “falar” quando se escuta! Um segundo desafio é saber administrar o princípio da universalidade da Igreja. Geralmente o discurso é interpretado a partir dos padrões socioculturais do local. Um terceiro desafio é assumir que a estrutura paroquial desconsidera a diversidade das comunidades, e a linguagem está, ainda, distante de cada particularidade.
A linguagem nasce e/ou nascerá, por outro lado, quando realmente existe o desejo de se comunicar com a pluralidade do mundo. A partir do momento em que a Igreja se abrir a esta realidade, manterá vivo o sonho do Reino, pois a linguagem na pastoral urbana é um instrumento essencial para promover o que a Igreja pretende difundir, comunicando Jesus Cristo com eficiência à sociedade urbanizada. Isso é possível!  

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Apetite da vantagem

Desde o século XIV, em meio aos pequenos artesões da idade média, as atividades econômicas da sociedade indicaram o caminho do individualismo, da independência econômica de cada proprietário. Até então, os artesões, pequenos e simples, sobreviviam organizados em associações de estilo mútuo, denominadas de “guildas”, com um ou dois aprendizes. Cada “guilda” impedia qualquer tipo de competição. Tinha como base o princípio da economia solidária. Neste sistema os pequenos comerciantes mantinham uma segurança considerável em comparação ao início da era moderna, época onde o sistema capitalista começou a se sobrepor.
Quando o espírito capitalista se infiltrou dentro do sistema de “guildas”, alguns proprietários passaram a ter mais dinheiro que outros, agindo de maneira competitiva. Fascinados por dinheiro perderam a modéstia, e, para aumentar os lucros empobreceram a outros. Além disto, iniciaram a exploração do freguês – cliente – consumidor.
Dentro desta lógica, há o que pode ser chamado “apetite da vantagem”, isto é, a prática onde um “come o outro” com a intenção de se sobressair nos negócios, e obter lucro sem medida.
Observa-se até agora, no tempo nomeado de pós-moderno, que a fome por dinheiro divide a sociedade, quebra as relações de fraternidade e fortalece um sistema econômico que controla a vida das pessoas, deixando-as insatisfeitas. Os segundos tornam-se valiosos; os feriados, principalmente os impróprios para o consumo, insignificantes; o desejo de fama e status, prioridade.
Por um lado, a atual economia de mercado incentiva a competitividade, o domínio das multinacionais e transnacionais que não estão em maus lençóis, assim como, segundo Max Weber, estava a classe média no período medieval. Por outro, atinge o agricultor familiar, o pequeno comerciante, os trabalhadores... Cada vez mais exclui o pobre de participar da fatia do bolo do crescente econômico: 1 bilhão no mundo, 46 milhões no Brasil.
Este sistema de mercado que eleva o “apetite da vantagem”, é visto pelos críticos como injusto, desumano, opressor e tecnicista. Responsável pela falência de trabalhadores que tentam competir, mas se sentem fracos diante da avalanche do grande capital, atua de maneira gulosa e “bebe” o sangue do povo.
Bem, disse Lutero quando criticou o sistema de especulação comercial, referindo-se sobre o comércio e a usura. “Eles tem, sob seu controle todas as mercadorias e praticam, sem disfarce, todas as atividades... aumentam e baixam os preços a seu talante e oprimem e arruínam todos os pequenos...”.      
É urgente propor e construir uma nova economia e uma produção de riquezas numa perspectiva voltada ao humano, para o desenvolvimento da sociedade, naturalmente não nos moldes do sistema de “guildas”, contudo que preza pela vida. 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Cinema na Comunidade

O cinema, na sua origem, tem a função de entreter o espectador para dentro de uma realidade, geralmente irreal, mas com capacidade de ajudar a refletir por meio do som e da imagem de um filme, a realidade real das pessoas. E, neste mundo moderno, além do aspecto cultural e artístico, o cinema é um instrumento de aprendizado e crescimento crítico das pessoas, sejam elas de diferentes idades.
Este ano de 2011 construímos, em comunhão com a Pastoral da Juventude, o Projeto Cinema na Comunidade. O objetivo é realizar encontros nas comunidades para assistir filmes, a fim de rezar, refletir e confraternizar.
A Igreja tem estrutura e condições, como também a missão de contribuir para o crescimento cultural de seu povo. Com este projeto, acreditamos estar favorecendo à uma prática, talvez, ainda tímida, que o acesso a bons filmes...
Ao poucos, queremos oportunizar a partilha das próprias atividades da Igreja, por meio de fotos e videos, construídos na própria paróquia, divulgando e desafiando a todos para valorizar a vida comunitária. Por isso, é importante afirmar que religião é cultura, arte e beleza. Pois de certa forma, o cristão é um grande artista nas estradas da vida.
Deus abençoe este projeto!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Romaria da Terra e da Água


Mais uma catástrofe ambiental aconteceu na região oeste de Santa Catarina nestes últimos dias. Certamente você tem acompanhado nos meios de comunicação a má notícia da chuva de pedras que atingiu alguns municípios da região oeste. Estive, inclusive,  no município de Anchieta, também afetado pela chuva de pedras, e olhei de perto as conseqüências causadas pelo mau tempo, àquela comunidade. Querido amigo, amiga! Estou comentando isto porque neste ano, a Igreja católica, no Brasil, celebrou a Campanha da Fraternidade com a temática: vida do planeta. Modéstia parte, a Igreja está de parabéns por levar as comunidades e todo povo a refletir e rezar a questão ecológica. É verdade que para muitos este assunto incomoda, alguns  não gostam, pois mexe com o erro histórico: o erro de destruirmos a natureza, a criação de Deus. A chuva de pedra que arrasou a muitos municípios nestes últimos dias prova as mudanças climáticas que estão ocorrendo, e mostra que não adianta as pessoas teimarem e continuarem explorando a natureza. É preciso criarmos uma espiritualidade ecológica e começarmos cuidar do planeta terra. Geralmente se explora a natureza para fazer dinheiro. O desejo desordenado pelo dinheiro leva a ações que machucam a natureza. Mas para que vale tanto dinheiro, se o dinheiro depois é gasto para recuperar saúde, casas, plantações... Também as águas envenenadas? Estamos em solidariedade com as famílias atingidas pela chuva de pedra em nossa região. Também em solidariedade com a natureza. É dever dos cristãos defender a vida da natureza. Para isso, teremos no dia 11 de setembro a Romaria da terra. Ela acontecerá no município de Irani/SC. Terá como lema “Deus criou... e tudo era muito bom”.   

Evangelização na cidade


O padre e a evangelização na cidade
Igor Damo
Texto provisório

Na época da cristandade a Igreja não preparou sua estrutura para enfrentar as mudanças da idade contemporânea, provocadas após a Revolução Francesa.   Atualmente tem sentido dificuldade de acompanhar e interpretar as transformações sociais, econômicas e políticas, o que tem ocasionado deficiências - plausíveis de correção - na evangelização, principalmente no espaço urbano caracterizado por aceleradas mudanças.
O Plano de Pastoral de Conjunto, lançado à luz do Vaticano II (1966), com objetivo de refletir sobre a pastoral urbana, foi a porta de entrada para alguns avanços frente ao dilema de ser Igreja em um contexto onde as mudanças religiosas são também profundas. Mas, em parte, a Igreja ainda demora em mergulhar nas “águas da pós-modernidade” e, consequentemente, crescem suas carências pastorais.
Basta ir às comunidades para perceber as gritantes necessidades da Igreja. As atividades básicas estão difíceis de ser desenvolvidas porque há carências humanas, financeiras e de método. Por exemplo: poucas são as pessoas disponíveis para assumir o conselho de pastoral nas comunidades; as turmas de catequese encontram-se muitas vezes sem catequistas; as pessoas têm fugido dos encontros de formação; não são criadas novas pastorais e acabam as existentes porque faltam lideranças para coordená-las; a celebração da Palavra tem pouquíssimos adeptos; a liturgia concentra-se nas mãos de uma minoria; é tímida a criação de novas comunidades urbanas; paróquias e dioceses mantêm um número reduzido de agentes de pastoral, e outros sinais.
Há dificuldade de conhecer a cidade, sua realidade dinâmica, aprender e saber sobre a autonomia de seus cidadãos inteligentes, livres para construir e transformar, pensar e decidir, questionar e acreditar. Identificar, de modo especial, as necessidades das pessoas que habitam a cidade, visitando-as e dialogando com elas, é ainda mais complexo.
A estrutura social da cidade exige empenho dos que lideram a ação evangelizadora. É fato que, na cidade, a vida foi e está sendo ameaçada, prioritariamente a dos pobres. A cultura do individualismo afeta em cheio a vivência comunitária. Por outro lado, o empenho na ação evangelizadora no mundo urbano deve identificar e apontar para o “bom” que se expressa na cidade. Ela é lugar da esperança, onde as pessoas buscam vida nova. Nela também habita o sagrado, buscado por distintas formas. Estes aspectos, se bem valorizados, podem tornar-se instrumentos eficazes na evangelização, tendo em vista o fortalecimento do ideal de Igreja Povo de Deus “elevando todas as capacidades, riquezas e costumes dos povos no que têm de bom” (LG 13b).
Esta realidade exige um olhar “ad intra” - para dentro - de maneira especial do papel do clero neste contexto que sente o desafio de evangelizar na cidade. Não que seja do padre a responsabilidade pelos erros e acertos na missão de evangelizar. Porém, na atual organização hierárquica cabe ao padre avaliar-se. “Estive entre vós cheio de fraqueza” (1Cor 2,3).
É preciso, ao padre, coragem e abertura para interpretar seus sentimentos, vontades, inseguranças, posturas, limites, fugas e resistências diante desta nova realidade pastoral que se modifica constantemente; assumir o que está no imaginário, não ter receio do novo, não se acomodar, procurar manter-se próximo das famílias, buscar autoridade sem autoritarismo, esquecer as autossuficiências, fazer a liturgia agradável; ressignificar a pesada estrutura da Igreja, sempre em comunhão, aprendendo do Libertador: “Todos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,28).
A Igreja na cidade, naturalmente, tem de ser dinâmica, precisa ser visualizada (sem triunfalismo) por meio de práticas que geram comentários, debates, críticas ou elogios, seja nas famílias, bares, praças, lojas, escolas, empresas. O povo da cidade necessita de uma Igreja visível, que desperte sentimentos que assinalem a viabilidade da comunidade onde vale a pena estar para viver a fé ao redor de Jesus Cristo (At 8, 5-8).
Os pastores, neste sentido, têm função particular. Para isso, a Conferência de Aparecida (2007) pediu conversão! “Só um padre apaixonado pelo Senhor pode renovar uma paróquia” (DAp 202). Fazer pastoral de conjunto, trabalhar em comunhão com demais padres e lideranças, atualizar o método pastoral sem cessar, pode fortalecer a evangelização na cidade, antes mesmo das ideias esplêndidas chegarem. Deixar-se conhecer, marcando presença nas diferentes realidades e inculturando-se, despertará a participação de novos leigos e leigas. Ou será que as ovelhas seguirão pastores estranhos (Jo 10, 5)?
A Igreja, porém, tem de se converter na totalidade. Se ficar fechada como sacrário, perde sua presença pública. Se as transformações mais profundas estão sujeitas ao clero, a Igreja deverá investir em formar e apoiar padres de espírito comunitário, capazes de quebrar esquemas tradicionais para garantir maior interlocução ao evangelizar na cidade. No entanto, cada padre certamente pode descobrir e se colocar na sincera busca de um jeito adequado para viver seu ministério e evangelizar na cidade à luz de Deus, animando e despertando o máximo as pessoas para serviços e ministérios, realizando com qualidade as missas, as reuniões, as homilias, as bênçãos, a opção social sem perder o foco. “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3, 15).
Perante esta missão, resta ao padre reconhecer-se pequeno “nada fazendo por competição e vanglória, mas com humildade...” (Fl 2, 3). Procurar a cada dia traduzir em práticas concretas os projetos sonhados à evangelização na cidade. Continuar a amar e a crer (1Jo 4, 16; 1Jo 5, 2). Amar porque tudo vigora quando tem um toque de carinho; crer, pois a fé em Jesus dará sentido à existência da Igreja na cidade. Principalmente, manter a gratuidade, as amizades, as relações fraternas, a espontaneidade, o carisma, os mesmos sentimentos do mestre Jesus (Jo 15, 13; Lc 15, 11s; Lc 10, 25s).
Receitas, porém, não existem! Mas seja cultivada a paixão. Assim costuma falar o Padre Domingos José Dias, um dos incansáveis evangelizadores na cidade: “Sem paixão na há evangelização”.